3 de fevereiro de 2015

O que você faria se fosse Van Gohg?

Pois bem: Dizem que esse cara vendeu apenas um quadro em sua vida. Cortou sua orelha em um episódio que muitos chamam de loucura. Depois que morreu, um de seus quadros foi a leilão e tornou-se por muitos anos o quadro mais caro da história devido ao valor pelo qual foi arrematado. VG passou a vida sendo incompreendido e recebia várias ofertas para pintar afrescos de igreja e outras babaquices que recusava por considerar um desperdício de seu talento. Seria como convidar Mozart para fazer arranjos de funk.
A loucura não é algo absoluto. Só é louco quem for comparado com outros e tiver atitudes incomuns. A conclusão parece óbvia: Qualquer gênio é incomum, portanto quando nasce em uma família pobre e não possui maneiras de se sustentar economicamente tem que lidar com vários absurdos gritantes. Por que isso? Porque um gênio não vai para o Faustão. Um gênio não vai fazer contracapa da revista veja. Por que não? Porque um gênio para ser gênio tem que dar importância à sua genialidade, tem que torná-la um objetivo de vida e não abandona este ideal por nada. Um gênio sabe que seu talento é um dom e precisa compartilhá-lo. Não o usa para benefício exclusivo. Isso é que o torna incrivelmente raro. Talvez, com a orelha que cortou, VG estivesse tentando mostrar, perguntando ao mundo aparentemente de forma insana, para que servem os sentidos das pessoas se eles estão embotados pelo preconceito, pelo egoísmo e pela ignorância? Me parece algo totalmente são e compreensivo o que aconteceu com VG. Indivíduos que possuem características peculiares de ver o mundo ficam suscetíveis à ansiedade, a convivência com o absurdo, a angústia e a incomunicabilidade com a grande maioria das pessoas e isso gera “a loucura”.
Outra coisa: Quem, além de seu irmão e uns poucos amigos apoiou Van Gohg? Ora, os demais diziam que ele era louco e megalomaníaco. Uma posição fácil e previsível para quem nem sequer sonha com o valor do que esse “louco” tinha para dizer ao mundo. Como alguém pode aceitar que o sujeito prefira ficar pintando quadros que ninguém entende ao invés de ir para a estiva no porto? Por que não vai pintar os barcos ou casas já que se diz pintor? Por vezes, é claro que até o irmão e esses alguns poucos apoiadores titubeavam e duvidavam da coerência de suas atitudes mediante a enxurrada de críticas e zombarias que recebiam.
Cortar a orelha pode ter sido um ato desesperado, mas está longe de ser insano. É como dizer que Gandhi é louco porque deixou de comer. Ele tinha um propósito, assim como Van Gohg.

Quem sabe se eu cortar minha orelha? Não! Não sou Van Gohg, mas me espelho nele. Sou  humano e frágil igual a todo mundo, só que ganhei um presente da vida (aprendi muito com a Ivone Pacheco – Take Five Clube de Jazz!): Deixei de lado o medo de parecer pretensioso quando compreendi que o que torna uma pessoa especial não é a capacidade que ela tem de fazer coisas incríveis, mas sim a capacidade que tem de doar o que faz para o bem comum. Quem me delegou esta certeza foram as pessoas que estiveram comigo dentro do meu pequeno teatrinho. Isso acabou com minha falsa modéstia e com o medo de parecer pretensioso. Sei que para muitos, pareço pretensioso, mas isso é inevitável, assim como foi para VG e vários outros.
Escrevo neste momento para desabafar. Não me importo de expor meus sentimentos publicamente, pois vejo boas razões para fazê-lo. Acabo de chegar da oficina onde fui buscar minha amada kombizinha. Gastei com o conserto o equivalente ao que ganho em mais de um ano com a caixinha de doações do Mini Teatro Móvel. Não tenho condições de ter o carro que tenho. Fui ajudado mais uma vez por meu pai e também por minha mãe. Recebi também doloridos puxões de orelha de ambos por estar nesta situação de dependência tendo 50 e poucos anos. Compreendo-os muito bem e só posso agradecer tudo o que sempre fizeram por mim. Mas, minha dependência não é por incompetência de trabalhar e correr atrás do $. Ela é fruto de uma escolha que muito poucos podem compreender.
Já toquei em bares, teatros, fiz arranjos e fui bem pago para isso. Compus jingles, fiz gravações, acompanhei cantores, ganhei festivais. Nada disso me fez tão realizado como sou hoje. Nada me fez receber tantos abraços e sorrisos. Nada disso fez tantos olhos brilharem diante de mim. Nunca recebi tantos agradecimentos e elogios. Nunca fui tão feliz.
Como posso pensar em ir tocar em um bar enquanto as pessoas ficam lá fazendo qualquer coisa menos ouvir o que está sendo tocado? Não quero desmerecer quem trabalha em bares, pelo contrário: Para ser respeitado em minhas necessidades aprendi a respeitar os outros que têm necessidades e prioridades diferentes das minhas. Enalteço os que nasceram para fazer isto, pois cada ser tem uma visão, um dom único e intransferível e cabe a cada um reconhecer e direcionar o leme das próprias vidas.
E os teatros? E os projetos? As leis de incentivo?
O dinheiro não pode ser meta de um artista. Se for, acabou o artista. O que conquistei durante o tempo em que estive com o Mini Teatro Móvel só eu sei. Ninguém mais sabe. Os que lá estiveram puderam compartilhar uma pequena parte, um ou outro aspecto. Mas os demais artistas, colegas, músicos, atores, escritores e tal, não podem imaginar do que se trata pois a experiência que se vive ali dentro é completamente diferente da que se experimenta em palcos grandes. O mundo se desdobrou para mim após a existência desta pequena caixa orgônica chamada Mini Teatro Móvel.
Quando penso na incomunicabilidade com a maioria que passa e nem me vê; Quando penso nas pessoas que saem do espetáculo transformadas; Quando penso em tanto desperdício com banalidades; Quando penso nas coisas caríssimas e nas pessoas que têm tanto $ e usam apenas para massagear o ego, para embelezar-se, para comer porcarias, para ostentar status, juro, levo as mãos até minhas orelhas e às acaricio. Mas não me revolto porque é exatamente por isso, por tanta estupidez e carência que meu trabalho se torna importante. Já fui como eles e sei que é possível mudar. É um paradoxo inevitável.
Não sei como, não visualizo como, mas vou até o último suspiro, até que não me restem mais orelhas. Não vou deixar de distribuir e receber todo o amor que tem fluido nestes últimos anos. Convoco outro gênio, o Einstein para lembrar-me de que tudo é um milagre.
E que Van Gohg seja uma inspiração para alguém que possa e queira se aliar, para que o destino movimente e sustente esse pequeno teatro itinerante que leva alegria, descobrimento, gratidão e celebra a vida no mais sagrado sentido que ela pode ter.









Gratidão.